10/01/2026

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O recente avanço na busca pelo DNA de Leonardo da Vinci, o célebre artista e cientista do Renascimento, trouxe à tona um novo conjunto de evidências genéticas. No entanto, a interpretação desses resultados gera ceticismo entre alguns especialistas. A descoberta foi divulgada pelo projeto Leonardo da Vinci DNA, sediado no J. Craig Venter Institute, em Rockville, Maryland, e foi reportada inicialmente na revista Science.

Os pesquisadores anunciaram que conseguiram rastrear DNA masculino em amostras coletadas de uma obra atribuída a Leonardo, denominada Holy Child, além de outros artefatos. As descobertas foram publicadas em um documento preliminar na plataforma bioRxiv, ainda sem revisão por pares.

A dificuldade em localizar o genoma de da Vinci é substancial. Seus restos mortais não puderam ser verificados devido a distúrbios ocorridos durante a Revolução Francesa, e muitos dos seus parentes diretos ainda estão sendo investigados. Além disso, Leonardo não teve filhos conhecidos, o que complica ainda mais a tarefa de identificar seu DNA. David Caramelli, antropólogo e especialista em DNA antigo da Universidade de Florença, que faz parte do projeto mas não esteve envolvido no novo estudo, afirma que a identificação é extremamente difícil, senão impossível.

Para contornar essas limitações, Norberto Gonzalez-Juarbe, professor assistente de biologia celular e genética molecular na Universidade de Maryland, e sua equipe analisaram diversas amostras de artefatos. Eles encontraram vestígios de plantas e outras assinaturas ambientais que poderiam estar relacionadas aos períodos e locais da vida do polímata, além de DNA masculino com linhagem toscana que, segundo eles, poderia apontar para Leonardo.

Manuel Porcar Miralles, microbiologista aplicado da Universidade de Valência, elogiou a pesquisa, classificando-a como “espetacular” e “tecnicamente robusta”. A metodologia se assemelha à resolução de mistérios modernos de crimes, onde a busca por padrões de DNA em diferentes locais pode levar a conclusões consistentes sobre a identidade do autor.

No entanto, a realidade é mais complicada. As obras de Leonardo estão cobertas por vestígios de DNA de inúmeras pessoas, desde contemporâneos do artista até manipuladores de arte em museus atuais, o que apresenta um desafio significativo para os pesquisadores. John Hawks, antropólogo da Universidade de Wisconsin-Madison, expressou ceticismo sobre a certeza dos resultados, afirmando que a pesquisa ainda não alcançou um nível conclusivo.

Embora a identificação do DNA não garanta sua proveniência de da Vinci, Porcar Miralles acredita que as informações obtidas ajudam a traçar um panorama sobre o ambiente e a comunidade do artista. Os autores da pesquisa tentaram desenvolver algumas dessas histórias, sugerindo que vestígios de cítricos encontrados nas amostras poderiam estar ligados aos jardins da poderosa família Medici, que governou Florença e empregou Leonardo por muitos anos.

Entretanto, a falta de autenticação da idade do DNA representa uma limitação significativa do estudo, conforme apontado por Caramelli. Gonzalez-Juarbe também reconhece que a equipe enfrentou desafios devido ao tamanho reduzido e à natureza fragmentada do conjunto de dados, além da quantidade limitada de DNA extraído de cada amostra. Apesar disso, ele acredita que os métodos apresentados no estudo podem servir como uma base para pesquisas futuras.

Para que os resultados se tornem mais robustos, Porcar Miralles sugere que a equipe busque remanescentes autênticos de da Vinci ou colete DNA de possíveis descendentes vivos que coincidam com as amostras encontradas. Gonzalez-Juarbe compartilhou esse otimismo, afirmando sua esperança de investigar múltiplos artefatos culturais relacionados à linhagem de Leonardo e de combinar as descobertas com as de seus descendentes.

Sobre o autor: Antônio

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