Investigação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) na Operação Gutenberg revela como investigados avaliavam o acesso a prefeitos para fechar contratos com a Editora Avante. As mensagens mostram que o esquema envolvia propina e o uso de serviços públicos de saúde como moeda de troca.
Os diálogos analisados são principalmente entre o advogado Gabriel Taquino de Paula, representante da editora, e o ex-gestor de regulação da Saúde, Ed Carlo Britto Burgatt. Em alguns casos, as conversas tratam apenas de conseguir acesso aos gestores. Em outros, aparecem menções a percentuais, ganhos financeiros e uso de serviços públicos de saúde nas negociações.
Em fevereiro de 2022, Gabriel perguntou sobre dois prefeitos: “O (de Anastácio) é de difícil acesso? E o prefeito de Aquidauana?”. Depois explicou o interesse: “Pra gente ganhar um dinheiro”. Ed Carlo respondeu que poderia verificar. Gabriel completou: “Se fechar a gente vai ganhar um dinheiro sem fazer nada”. Afirmou ter fechado negócio de R$ 780 mil com Angélica e que receberia R$ 20 mil por isso.
A dinâmica se repetia: descobrir quem tinha acesso ao prefeito, conseguir a reunião e tentar avançar com a contratação, com propina que ia de 2% a 15%. Em Caarapó, Gabriel informou em 24 de maio de 2022 que havia se reunido sobre o município. “Terça-feira vou lá só fazer o merchandising com o prefeito”, escreveu. Depois enviou mensagens sobre divisão da suposta propina: “5 seu”, “15 prefeito”.
Em Inocência, Ed Carlo avisou a Gabriel: “Prefeito está aqui” e “Esse é só meu se rodar”. Gabriel respondeu que pediria o orçamento e acrescentou: “Aí vc divide com o prefeito”. A reunião ocorreu na regulação estadual de saúde, local de trabalho de Ed Carlo. Antes do encontro, ele orientou Gabriel: “Só explica e não fala nada de percentual ok”.
O caso de Nova Alvorada do Sul mostra quando o negócio não avançava. Ed Carlo afirmou: “Vou ligar pro prefeito”, “vou ajudar um monte o prefeito”, “pra nada”, “eu tranco tudo aqui” e “saúde zero”. Para o Gaeco, Ed Carlo usava sua posição na Secretaria Estadual de Saúde para condicionar o encaminhamento de cirurgias e exames à contratação da editora.
Em outra conversa, quando surgiu a informação de que Nova Alvorada do Sul não faria a contratação por falta de orçamento, Gabriel escreveu: “Deixa o povo sem leito lá” e “Suspende as cirurgias de nova alvorada”. Em outro momento, Gabriel disse que Ed Carlo ganharia R$ 80 mil. Ed Carlo respondeu: “Vou dar 300 mil de exames pra eles” e “Fora as cirurgias”.
Em Ivinhema, Gabriel tentava vender ao prefeito e dizia que daria “um presente” a Ed Carlo. A investigação registra que Ed Carlo afirmou que resolveria a situação do prefeito na área da saúde. Gabriel respondeu: “Eu tenho um amigo que resolve”, seguido de “Mas precisa agraciar ele”.
Em Angélica, Gabriel marcou uma reunião com o prefeito na Coordenadoria de Regulação. “Terça feira aí na regulação”, escreveu. “Com o prefeito de Angélica”. Porto Murtinho aparece em outro núcleo das conversas. Felipe Jafar, preso na operação como proprietário da Editora Avente, disse que tinha contatos em municípios e conseguiria “de prontidão já começar a mexer alguma coisa”.
