28/04/2026
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Parque do Sóter: aposentada vê abandono onde criou memórias

O Parque Ecológico do Sóter, em Campo Grande, sempre fez parte da vida da administradora Silmara Brito Borges, de 52 anos. Há cerca de 20 anos ela mora a uma quadra da área verde de 22 hectares, no coração da Mata do Jacinto. Durante anos, ao sair para o trabalho, repetia a promessa de um dia curtir o parque.

O sonho se tornou realidade quando ela se aposentou, há dois anos. Desde então, vai todos os dias ao Sóter: às segundas, quartas e sextas faz ioga; às terças e quintas, pilates. “Eu sempre passava aqui e falava: ‘o dia que eu me aposentar, eu vou vir para esse parque, fazer essas aulas, vou curtir a vida’. E, quando eu me aposentei, a primeira coisa que eu fiz foi vir para cá”, relatou.

Duas décadas depois, porém, a realidade mudou. O parque com que ela sempre sonhou não é mais o mesmo. Segundo Silmara, o Sóter foi um “quintal particular” do filho, Max Henrique, que cresceu brincando no parquinho e andando de bicicleta. Hoje, o parquinho não tem mais balanços nem o escorregador que o filho adorava.

“O parquinho precisa de manutenção porque, você vê, o meu filho brincou ali. O que o meu filho viveu aí, outras crianças não estão vivendo”, completou. O local também se tornou depósito. Entre os brinquedos quebrados e inutilizados estão peças de equipamentos da academia ao ar livre.

A entrada do parque, na Rua Hermínia Grize, já revela o estado de conservação: estrutura abandonada, pintura descascada, grades danificadas e trechos da pista de caminhada quebrados. A grama cortada é o único sinal de que o parque não está abandonado.

De acordo com a Prefeitura de Campo Grande, em 2019 foi realizada a reforma das guaritas de entrada. “Esses espaços sofreram atos de depredação. No momento, não há previsão orçamentária definida para uma nova reforma estrutural no parque”, informou.

A nova rotina de Silmara inspirou a irmã, que se mudou com a família do interior de São Paulo para Campo Grande em novembro e fez questão de morar na Mata do Jacinto. Como forma de retribuição, o filho e a sobrinha de Silmara plantaram um pé de ipê próximo ao parquinho. “Já que o parque faz parte da nossa história, vamos fazer parte da história dele também”, explicou.

Os sinais de abandono também estão na outra entrada do parque, na esquina da Rua Cristóvão Lechuga Luengo com a Rua Antônio Rahe, onde se concentram atividades esportivas como futebol, futsal, funcional e vôlei.

O corretor de seguros Fabrício Vitor Felipe, de 46 anos, frequenta o Sóter para jogar tênis. Ele ressalta a importância de ter uma quadra pública, mas diz que isso é apenas o começo: “Deveriam apresentar um projeto para, pelo menos, pintarem a quadra”. Para usar o local, um grupo com mais de 40 pessoas fez uma vaquinha para comprar equipamentos e pintar a quadra.

Impacto na economia

A precarização do Parque do Sóter também tem reflexos econômicos. A empresária Maria Clara da Silva, de 18 anos, abriu a cafeteria Kioko Luz Sana em frente ao parque. A ideia era atrair os frequentadores com um cardápio fitness. “A gente achou que ligaria muito bem com a proposta do parque; muita gente vem correr, andar de manhã, mas hoje em dia o nosso público não é nada do parque”, explica.

Segundo ela, as pessoas atravessam a cidade para frequentar a cafeteria. “É mais provável, por exemplo, pessoas virem do Parque dos Poderes”, diz. A empresária aponta que mesmo as aulas de atividades físicas não são suficientes para atrair o público. “É um parque que tem muito potencial, um parque muito bonito, mas acaba não sendo tão cuidado”, finalizou.

Dados da Prefeitura apontam que cerca de 800 pessoas passam pelo Parque do Sóter todos os dias.