Moradores de três cidades brasileiras, Botucatu (SP), Nova Lima (MG) e Maranguape (CE), serão os primeiros a receber a Butantan-DV, uma nova vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. O imunizante será administrado em uma aplicação em massa nos dias 17 e 18 de janeiro, visando a população na faixa etária de 15 a 59 anos. Este evento faz parte de um estudo populacional que busca avaliar a eficácia da vacina em um contexto do “mundo real”, conforme explicam especialistas da área.
Segundo Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI), a vacina já demonstrou ser segura e eficaz para os indivíduos, mas o foco do estudo é determinar o impacto da vacinação em larga escala na transmissão da doença. “Queremos saber qual percentual da população teremos que vacinar para a doença parar de circular no território”, afirmou Gatti. A pesquisa utilizará as 300 mil doses iniciais disponibilizadas para entender quando a imunização será suficiente para reduzir drasticamente os casos de dengue, mesmo entre aqueles que não forem vacinados.
A escolha das cidades para o estudo não foi aleatória. Gatti destacou que as localidades têm uma população média entre 100 mil e 200 mil habitantes e a infraestrutura necessária para realizar a vacinação em massa. Além disso, Maranguape foi selecionada para avaliar a circulação do sorotipo 3 do vírus.
Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, diretor do curso de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu, sublinha que a vacinação de metade da população pode gerar um “impacto populacional imenso”. Ele explica que, ao evitar que pessoas vacinadas adoeçam, a disseminação do vírus também é contida. A dengue se propaga pelo mosquito, mas a transmissão entre pessoas é um fator crucial para a continuidade da doença.
Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), complementa que a alta incidência de infecções, combinada com a presença de mosquitos, aumenta a “força da infecção”, resultando em um maior número de casos. “Precisamos enfrentar essas duas questões, tanto o número de pessoas infectadas quanto de mosquitos”, alerta Kfouri.
A expectativa é que os primeiros resultados do estudo sejam visíveis cerca de 21 dias após a vacinação, uma janela de tempo que foi observada em estudos anteriores com vacinas contra a Covid-19. Entretanto, Fortaleza ressalta que é fundamental que os moradores compareçam para a vacinação nas datas programadas.
Além do estudo em questão, o Brasil já tem uma estratégia de imunização em andamento, priorizando profissionais de saúde e idosos. Com cerca de 150 milhões de brasileiros aptos a receber a vacina, a expectativa é que a disponibilidade aumente gradualmente. O Instituto Butantan já possui 1,3 milhão de doses prontas e fez acordos com a fábrica chinesa Wuxi para produção adicional, o que pode facilitar a vacinação em maior escala no futuro.
Gatti enfatiza a importância de aproveitar as doses iniciais do imunizante para avaliar a possibilidade real de eliminar a dengue através da vacinação. “Vamos conseguir vacinar adultos perto da faixa etária de 59 anos até 2026. À medida que avançarmos na vacinação dessa população, que é mais suscetível a casos graves de dengue, teremos um impacto significativo na gravidade das epidemias”, conclui.
