A tentativa de reerguer o Centro de Campo Grande por meio da atração de moradores não é nova e, até agora, tem avançado pouco. Entre projetos que não saíram do papel e iniciativas ainda sem ocupação, cresce um movimento inverso: moradores antigos já planejam deixar a região.
Em agosto de 2019, surgiu a ideia de transformar o Hotel Campo Grande em 117 imóveis populares, pelo Programa Retrofit, do Governo Federal. Localizado na Rua 13 de Maio, o hotel foi vendido em 2023, reformado e hoje pertence à Rede Slaviero. O plano não vingou.
Em 2022, foi lançado o Condomínio da Melhor Idade, a Vila dos Idosos. A entrega oficial ocorreu em 2025, mas o local ainda não está sendo habitado. O condomínio fica em frente ao Horto Florestal, no cruzamento da Avenida Fernando Corrêa da Costa com a Avenida Fábio Zahran. A proposta prevê reduzir o deficit habitacional e estimular o consumo na região central, que enfrenta esvaziamento e crise imobiliária.
Outros projetos em andamento
A Emha (Agência Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários) informou que Campo Grande possui iniciativas dentro do programa de locação social, nos modelos de parque privado e parque público. Entre os projetos em andamento estão a Vila dos Idosos, o Condomínio Belas Artes, em construção, e o Residencial Reviva, na Avenida Fernando Corrêa da Costa, em fase de contratação.
“O Município segue desenvolvendo projetos voltados à moradia na região central da cidade”, disse a Emha em nota.
A ideia segue uma tendência de grandes centros urbanos. Cidades como São Paulo vivem o processo de reocupação das áreas centrais por meio de incentivos ao Retrofit, reforma de prédios antigos para moradias.
Moradores querem sair
A expectativa da Prefeitura contrasta com a realidade do Centro: pichação, furto, andarilhos e o medo dos moradores. Moradora da Rua Maracaju há 26 anos, a comerciante Marcina Ferreira, de 68 anos, afirma que pretende deixar o local em breve. “Ultimamente, estou pensando em mudar. Eu planejo mudar daqui ano que vem”, disse. Ela cita insegurança e barulho como principais problemas. “O que eu menos gosto aqui é morador de rua e os bares. Já quebraram o vidro aqui da porta.”
O comerciante Renato Moraes, de 75 anos, mora no Centro há 55 anos. “Antes de abrir esses bares era muito bom. Depois, são muitos carros, motos fazendo barulho, tem dia que a gente acorda pulando da cama.” Dono de uma loja de couro e calçados, ele diz que vai fechar o negócio e se mudar. “Eu já prometi que eu não vou morrer aqui. A 14 de Julho acabou.”
O marceneiro Gabriel Patriota, de 27 anos, mora há três anos na Rua Maracaju. Ele aponta a segurança como fator essencial para melhorar a região. “No começo foi ruim, porque não tinha mercado perto, a farmácia fechava cedo”, relatou.
Análise de especialista
Na visão do arquiteto e urbanista Ângelo Arruda, que ajudou a elaborar o Plano Diretor de Campo Grande, levar moradia para o Centro é complexo. “Não se resolve construindo casas e apartamentos. Historicamente, o Centro de Campo Grande nunca teve moradia”, afirmou. Segundo ele, é preciso criar condições que estimulem a circulação de pessoas. “Tem que estimular o Centro para que as pessoas possam circular.” Arruda também destaca a falta de áreas disponíveis no quadrilátero histórico para novos projetos.
O Creci-MS (Conselho Regional dos Corretores de Imóveis de Mato Grosso do Sul) defende que a moradia vai ajudar o Centro a recuperar a vitalidade urbana e o consumo local. “Levar moradores tende a ajudar o comércio, porque aumenta o fluxo cotidiano de pessoas”, disse a vice-presidente Simone Leal. No entanto, ela cita que a medida funciona melhor quando vem acompanhada de segurança, transporte e serviços públicos.
