No artigo “A tirania de ter que ser interessante”, publicado em 26 de abril de 2026, o psicanalista René Dentz aponta um novo imperativo silencioso na vida contemporânea: é preciso ser interessante o tempo todo. Para ele, não basta existir, é preciso render; não basta viver, é preciso gerar narrativa; não basta sentir, é preciso transformar a experiência em algo compartilhável, admirável e desejável. A vida deixou de ser vivida para ser constantemente editada.
Dentz afirma que o sujeito contemporâneo sofre não apenas por aquilo que lhe falta, mas por aquilo que não consegue performar. Há uma ansiedade difusa que atravessa as relações, o trabalho e o lazer, com a sensação de que a qualquer momento podemos nos tornar irrelevantes, como se a existência precisasse justificar sua permanência no mundo a cada instante.
Esse cansaço, segundo o autor, não se resolve com descanso, porque não vem apenas do excesso de tarefas, mas do excesso de exposição. O tempo livre foi capturado por essa lógica: ele já não é vivido como pausa, mas como oportunidade de produzir uma versão interessante de si. Descansar, hoje, parece exigir também uma estética. O olhar que antes vinha de fora foi internalizado; carregamos um espectador permanente que avalia, compara, corrige e descarta. Nunca estamos simplesmente presentes — estamos sempre, de algum modo, nos assistindo.
A psicanálise, lembra Dentz, ajuda a nomear esse mal-estar ao lembrar que o desejo nasce da falta, e não da performance. No entanto, o que se vê é uma tentativa contínua de preencher qualquer vazio com produção: mais imagens, mais ideias, mais opiniões, mais versões de si, como se o silêncio fosse um erro a ser corrigido. Para ele, o silêncio não é falha — é condição. É nele que algo de verdadeiro pode emergir sem a pressão de ser imediatamente compreendido ou validado. É no intervalo, e não na exposição contínua, que o sujeito se encontra.
O psicanalista sugere que uma das formas mais discretas e radicais de resistência hoje é recusar a obrigação de ser interessante o tempo todo. Permitir-se não ter o que dizer, não ter o que mostrar, não ter o que provar. Recuperar o direito de ser banal sem culpa, de viver experiências que não precisam ser convertidas em conteúdo. Para ele, há algo profundamente humano em poder existir sem audiência, em sustentar uma vida que não precisa impressionar para fazer sentido.
René Dentz é psicanalista, pós-doutor pela Freiburg Universität, na Suíça, professor de filosofia da PUC-Minas, finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2025 e comentarista da Rádio Itatiaia.
