A startup Kerow, de Campo Grande, em parceria com a empresa Panta Embryo, está desenvolvendo soluções baseadas em inteligência artificial e visão computacional para a pecuária de corte. As tecnologias foram apresentadas durante a Pantanal Tech, em Aquidauana, e visam aumentar a eficiência reprodutiva e monitorar o rebanho diretamente no pasto, reduzindo a necessidade de manejos físicos constantes.
A coordenadora do Gentra (Grupo de Estudos em Tecnologia da Reprodução Animal) da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), Fabiana Sterze, de 49 anos, explica que os trabalhos buscam adaptar ferramentas digitais para a reprodução animal. Um dos três produtos em desenvolvimento foca na seleção de embriões, atividade que hoje depende majoritariamente da avaliação visual humana. “Hoje em dia, essa seleção é feita pelo olho humano. Existe uma grande variação do olho humano”, aponta Fabiana.
A nova ferramenta visa padronizar essa análise para escolher os embriões com maior potencial de desenvolvimento de gestação. Segundo a pesquisadora, os reflexos dessa automação aparecem no pasto: “Para o produtor, ele vai sentir a hora que ele tiver melhores taxas de prenhez, quando ele tiver uma maior rentabilidade pelo ganho genético e menor perda dessas gestações”.
As outras soluções alcançam o manejo de campo por meio do sistema “Endrofarm”. A proposta integra visão computacional ao monitoramento da saúde, peso, ingestão de água e condição corporal dos bovinos usando câmeras ligadas a painéis solares. A tecnologia permite avaliar fêmeas receptoras de embriões com base em um histórico de longo prazo, superando o modelo atual que analisa o animal apenas no dia do início do protocolo reprodutivo.
O CEO da Kerow, Fabrício Weber, detalha que o sistema extrai medidas corporais de forma automatizada e identifica os animais mapeando o espelho nasal (focinho), que funciona como uma impressão digital única de cada bovino. “A gente usa visão computacional e inteligência artificial, pega essas imagens, tira as medidas com um pixel e transforma para medidas reais”, explica.
A empresa conduz pesquisas com animais de zero a dois anos para comprovar que o desenho do espelho nasal não se altera com o tempo, o que pode transformar a tecnologia em um mecanismo de rastreabilidade nacional. Em relação à disponibilidade comercial, a contagem de animais por imagens de celulares ou VANTs já está disponível. Já os sistemas de identificação e pesagem por imagem passam por validação com produtores.
Atualmente, o sistema registra o peso dos animais com um erro médio de 13 quilos no final do confinamento, variação de 3% em um animal de 500 quilos. O índice é comparável à margem de erro das balanças físicas tradicionais, que chegam a 5%. Fabrício Weber esclarece que a margem de erro indica que a inteligência artificial está discernindo características biométricas, em vez de memorizar padrões fixos.
Para os desenvolvedores, o principal ganho da pesagem e identificação por câmeras reside no bem-estar e na segurança do ambiente rural. Ao reduzir o fluxo de animais pelos troncos e balanças convencionais, o sistema diminui o estresse do rebanho e os índices de acidentes de trabalho. “A ideia é diminuir o manejo dos animais, e isso vai diminuir tanto a injúria do ser humano quanto dos próprios animais”, conclui Fabrício Weber.
