Familiares do rapaz de 24 anos baleado por policiais militares em uma borracharia no Bairro Nova Campo Grande, no domingo (12), afirmam que ele foi tratado como estuprador antes mesmo de ser ouvido. Vídeos apresentados pela família mostram um policial entrando no imóvel e dizendo: “Você que estuprou a menina, seu cuzão? Arregaçou a menina”, enquanto se aproxima do suspeito.
A polícia investiga o homem por suspeita de estupro contra uma adolescente após um baile funk na Capital. A família nega o crime e contesta a versão do boletim de ocorrência, segundo a qual ele teria tentado fugir, entrado em luta corporal com o policial e tentado tomar a arma antes de ser baleado.
Uma comerciante de 38 anos, prima do rapaz, que pediu para não ter o nome divulgado, disse que os policiais chegaram ao local em dois camburões, acompanhados pelo pai da adolescente, que teria se apresentado como PRF (Polícia Rodoviária Federal). Segundo ela, o grupo inicialmente não encontrou o suspeito e foi embora. Depois, os policiais retornaram com uma testemunha e passaram a acusá-lo de estupro.
“Já chegaram falando que ele tinha estuprado a menina. Não perguntaram nada e não ouviram ele. Já chegaram afirmando que ele tinha estuprado e agredido ela”, declarou. A comerciante afirmou que familiares tentaram impedir a entrada dos policiais na casa do pai do investigado. “Nós nos mobilizamos porque eles queriam entrar na casa do meu tio para pegar ele e não deixamos. Ficamos no portão. O pai da menina foi para cima da esposa do meu tio, fazendo menção de agredir ela, e tivemos que intervir para ela não apanhar. Depois eles entraram e escutamos os tiros”, relatou.
Eunice Aparecida dos Santos, de 40 anos, prima do baleado, afirmou que ele disse ter conhecido a adolescente naquela noite e que os dois estavam juntos voluntariamente. Segundo Eunice, imagens de segurança mostram a jovem em uma lanchonete após o rapaz já estar em casa, sem ferimentos aparentes e acompanhada por um amigo do suspeito. “Temos a imagem que mostra que, depois que ele deixou a menina e o amigo, o menino ainda a levou na salgadaria. A menina estava bem, sem hematoma nenhum”, declarou.
Eunice também disse ter recebido informações de que outra pessoa poderia ter agredido a adolescente, mas reconheceu que não pode confirmar. “Segundo o que chegou para nós, e eu não posso afirmar, quem bateu nela foi o próprio pai”, afirmou. Ela contestou a versão de que o homem tentou fugir da polícia, dizendo que havia uma mulher cadeirante e crianças dentro da casa no momento da entrada dos policiais. “Não é que ele fugiu. Quando eles entraram na casa, estava minha tia cadeirante e criança dentro de casa. Quando ele viu, o policial já sacou a arma. O tiro foi dentro da casa, com todo mundo ali dentro”, afirmou.
Marcelo Rodrigues, de 48 anos, pai do baleado, reconheceu que o filho tem antecedentes criminais e estava com mandado de prisão em aberto por ter rompido a tornozeleira eletrônica. Mesmo assim, afirma que isso não prova a acusação de estupro. “Meu filho, eu não vou mentir, já teve problema com a Justiça. Falar que ele é santo é mentira. Inclusive estava com mandado de prisão porque violou a tornozeleira eletrônica. Mas isso não vem ao caso com o que aconteceu agora. Ele está sendo acusado de estupro, uma acusação muito séria”, declarou.
Segundo Marcelo, o filho precisou amputar uma das pernas após o tiro e corre risco de morrer. O pai também acusa os policiais de não terem chamado socorro imediatamente, afirmando que foram os familiares que acionaram o Corpo de Bombeiros. “Se não fosse minha esposa e a prima dele para socorrer, os policiais não chamaram socorro. Trouxeram uma camionete para jogar ele igual porco, mas não deixaram. Minha família chamou o socorro e o bombeiro veio”, disse.
A versão do boletim de ocorrência é diferente. Segundo o documento, equipes da Força Tática foram até a borracharia após receberem informações sobre o investigado. Ele não teria sido encontrado inicialmente, mas localizado escondido em uma construção nos fundos. Ainda de acordo com o registro, ao perceber a aproximação, o homem tentou fugir, desobedeceu às ordens de parada e entrou em luta corporal com um militar, tentando tomar a arma. Durante a intervenção, foi atingido por um disparo na coxa. A família nega essa versão e pede justiça.
