28/04/2026
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Pantanal: resiliência ao fogo tem limite

Pesquisa publicada na plataforma científica Springer Nature Link mostra que o Pantanal consegue se recuperar depois de incêndios, mas essa capacidade tem limites. O estudo, divulgado na revista Wetlands Ecology and Management, indica que a resiliência do bioma pode ser comprometida quando fogo, inundação e pressão do gado atuam juntos.

O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores do PELD (Programa de Pesquisa Ecológica de Longo Prazo), ligados à UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e outras instituições. Os autores incluem Alexandre de Matos Martins Pereira, Francielli Bao, Evaldo Benedito de Souza, Arnildo Pott, Valli Joana Pott e Geraldo Alves Damasceno-Júnior.

Com base em experimentos de longo prazo, os cientistas analisaram como diferentes tipos de queimadas, níveis de alagamento e a presença de herbivoria afetam a vegetação do Pantanal. A conclusão é que o sistema suporta perturbações, mas não de qualquer forma. “O Pantanal é resiliente, mas não é indestrutível”, resume o artigo.

O estudo mostra que incêndios mais intensos, principalmente em áreas mais alagáveis, reduzem a diversidade de espécies e tornam o ambiente mais homogêneo. Por outro lado, queimadas de baixa intensidade, feitas no início ou no fim da estação seca, podem favorecer a biodiversidade em áreas menos inundadas. O chamado “fogo modal”, mais intenso e comum no auge da seca, reduz tanto a diversidade de espécies quanto a variedade de funções ecológicas.

O regime de cheias é um fator decisivo. Áreas mais alagadas já impõem um filtro natural para as espécies. Quando combinadas com incêndios intensos, o efeito é potencializado, levando à perda de diversidade e simplificação da vegetação, principalmente nas regiões que ficam alagadas por mais tempo. A pesquisa indica que discutir incêndio no Pantanal sem considerar o ciclo das águas é uma análise incompleta.

A herbivoria, associada principalmente ao pastejo de gado, também é um ponto sensível. Quando combinada com o fogo, ela pode intensificar a perda de espécies. Em alguns cenários, o efeito conjunto de fogo e herbivoria reduz a diversidade de forma parecida com incêndios de alta intensidade.

Os pesquisadores destacam que o Pantanal mantém sua riqueza biológica pela variação de condições no espaço e no tempo, conceito chamado de “pirodiversidade”. Ambientes com queimadas em diferentes momentos tendem a ser mais diversos do que áreas afetadas por eventos extremos concentrados. Essa heterogeneidade é essencial para sustentar os serviços ecossistêmicos do bioma.

Apesar dos riscos, o estudo não descarta o uso do fogo como ferramenta. Queimadas controladas, bem planejadas e ajustadas ao regime de cheias podem ajudar a manter o equilíbrio do sistema. Combinações erradas de intensidade do fogo, período do ano e pressão de pastejo podem levar à perda de biodiversidade, especialmente em áreas mais vulneráveis. A pesquisa reforça que estratégias de manejo precisam considerar clima, hidrologia e uso econômico do território ao mesmo tempo.